Elocubrar é a variante de lucubrar, compor uma obra com esforço, a custa de muita meditação. Literatura que se faz espremendo o cérebro. (O Autor)-------O Bom humor é a medida absoluta da inteligência do ser humano. (Nietzsche).

Tuesday, 7 August 2007

PAURA

...o breu desgraçado! Mal conseguia distinguir o asfalto do acostamento. Era uma noite de céu encoberto. Deveria estar com medo mas como dizem, o que não se vê não se sente. Lembrei de meu avô dizendo “só bestas como você para acreditar em coisas que só os olhos vêem”. Senti sua presença ao meu lado, “devia dar ouvidos ao seu coração”.
De imediato meu coração disparou, um frio súbito subiu minha espinha. Algo de muito ruim estava para acontecer, não sabia o quê, algo de muito perigoso. Parei no meio da estrada e tentei ver o que poderia ser.
Nada. Escutar? Somente os grilos e vento batendo no mato.
Cheiro? O perfume do ar da noite.
Mas meu coração saltava avisando que tinha problemas chegando, “maldito carro quebrado! Merda!”.
Meu avô de novo, “é melhor se acalmar pra pelo menos não mijar nas calças, o resto deixa que seu coração resolva”.
Desatei a correr, pude perceber uma árvore bem copada na beira do acostamento. Subi. Achei uns galhos que me deixariam bem escondido e até confortável.
Algum tempo depois percebi um barulho de motor se aproximando. Era um carro de faróis apagados e uma lanterna vasculhava o acostamento. Pararam perto da árvore, pude ouvi-los:
“Será que o desgraçado conseguiu fugir”?

“Vamo dá uns tiros no mato só pra ter certeza”.

“Não. O cara conseguiu fugir. O santo dele foi mais forte. Não tem jeito.”
Foram embora.

Fiquei tão apavorado que adormeci agarrado aos galhos. Sonhei com meu avô, dizia que estava se esforçando para que nada de mal me acontecesse, mas que deveria lembrar das coisas que ele me ensinou.
“Que coisas?”. Perguntei.
“Aquelas que te permitiram sobreviver a este contratempo.”
Acordei com um cocô de passarinho escorrendo no meu rosto. Nem percebi o sol nascer, mas estava com uma estranha tonalidade. Dizem que quando se tem contato com os espíritos o dia seguinte fica de uma cor diferente.
Fui pra casa.
  • Posted: Tuesday, 7 August 2007 13:50:39 GMT
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O VESTIDO

O Vestido

Janice foi convidada para ser madrinha de casamento de sua afilhada Sandra. Foi na melhor loja do shopping. Durval, o marido, tinha feito um bom contrato de prestação de serviço para um político da cidade e com isso ela pode se empetecar a vontade para o casamento. Comprou um vestido longo azul claro. Simples mas muito elegante. Janice tinha bom gosto pelas coisas. Foi educada em colégio interno de freiras. Havia feito faculdade de letras numa universidade católica. As próprias freiras sustentaram sua graduação, foi uma aluna exemplar no internato. Formou-se em latim antigo, infelizmente ninguém a avisou que esta língua era morta.

Conheceu Durval no final da faculdade. Foi amor á primeira vista. Ele estudava engenharia elétrica. Formavam o casal perfeito a exatas e a humanas. Janice foi convidada a continuar na universidade, mas abdicou em favor de seus filhos. Foram quatro no total, todos formados. No dia do casamento de Sandra ficou cinco horas no cabeleireiro foi serviço completo, pés, mãos, cabelos, limpeza de pele, massagens. Tudo isso valeu a pena. Quando Durval a viu com seu vestido recém comprado, saltou os olhos como um lobo que vislumbra uma bela cabrita. Ela com um sorriso maroto tinha entendido tudo. Haveria duas festas hoje.

Chegaram á igreja com o novo carro importado de Durval em grande estilo. Trataram de tomar seus devidos lugares de padrinhos ao lado esquerdo da noiva. A igreja estava cheia. Iria ser um casamento epopéico. Meses depois o casamento ainda seria tema de assunto em cabeleireiros e rodas de madames. O ambiente estava preparado para receber a noiva. Dez minutos depois soam as trombetas, a marcha nupcial começa a tocar, pétalas de rosas caem do balcão. Mulheres em prantos ao ver a beleza da noiva. Seu vestido era de um branco virginal, com uma longa cauda e um penteado alto aparentando uma maior estatura.

O padre deu início á cerimônia. Janice estranhou que as mulheres da platéia a olhavam e algumas davam risadinhas irônicas. Sua amiga Elenice apontou discretamente o outro lado, dos padrinhos do noivo.

Tragédia! Desastre! A madrinha, prima do noivo estava com um vestido idêntico ao dela. Janice quase desfaleceu. Como alguém pode ousar vestir a mesma roupa que a dela? Estava vermelha era evidente sua consternação. Durval também percebeu a coincidência e foi solidário a sua mulher apesar da voluptuosidade da prima do noivo. Era notório que o vestido caia muito melhor na prima do noivo do que em Janice. O padre fez o favor de estender a missa ao máximo, era amigo da família.

O sermão dizia a respeito das boas amizades do quão era bom se sentir perto das pessoas que compreendem seus medos e alegrias. Janice mal ouviu o sim, qualquer esquina ou buraco serviria para se esconder deste escândalo. O céu caiu sobre sua cabeça. Ela seria motivo de chacota de toda a alta sociedade. Afinal batalhou tanto para conseguir chegar a este status e por causa de uma sirigaita foi destronada de um minuto para outro. Foram jantares, festas, aparições públicas. Tudo em vão. Amanhã retornaria ao ostracismo social.

Os noivos estavam casados. Janice tratou de sair da vista de todos, mas aquela fila de comprimentos era um tumulto, não tinha como fugir. Tudo isto a fez ponderar qual seria a gafe maior sair á francesa de um casamento em que se é personagem principal ou encarar as terríveis coincidências. “Mas que diabos!” – Ela pensava.

“Porque esta lambisgóia foi escolher o mesmo vestido que o meu?” – Chegou a hora dos comprimentos Janice mal sorria, o casamento de sua sobrinha preferida foi um desastre. Comprimentou Sandra com dois beijos e um abraço foi quando viu a madrinha do noivo logo atrás. Janice baixou a cabeça, foi saindo como um cachorro com o rabo entre as pernas mas a prima lhe interrompeu o caminho:

“Meu Deus! Mas você esta com o mesmo vestido que eu! Você realmente tem um ótimo gosto!” – Falou em alto e bom som para todos ali na frente da igreja ouvirem.

“Mulher desgraçada, piranha, vagabunda!” – Seus pensamentos quase saíram pela boca, seus olhos ferviam. Ameaçou um coice na canela dela. Durval que a conhecia muito bem agarrou seu braço evitando um mal maior e a compostura pairou sobre suas cabeças novamente.

Foram apresentadas as respectivas madrinhas, a prima se chamava Celina uma mulher alta de cabelos pretos e lisos, pequenos e incisivos olhos castanhos. Sua boca só tinha lábios, suas pernas não acabavam mais. Extremamente simpática mais do que o necessário pensou Janice. Os noivos iriam receber os comprimentos em um famoso buffet da cidade.

Celina estava sem condução para a festa. Pediu carona a alguém e logo vários marmanjos se dispuseram a levá-la inclusive o Durval. Celina ficou encantada com o casal e aceitou.

“Nossa! Mas vocês dois formam um casal maravilhoso, acho mística esta linda coincidência dos nossos vestidos. A senhora não acha?” – Os olhos de Janice se encheram de lindas lágrimas de raiva, rezou para que seu marido fosse um psicopata e a matasse. Jogaria seu corpo no rio e tudo estaria bem o tão afamado casamento estaria salvo e não seria alvo de chacotas das fofoqueiras de plantão.

Parecia que aquele pesadelo não teria fim. No salão foram fotografadas juntas, filmadas juntas, até entrevistadas. Celina insistiu em sentar-se à mesa junto com tão belo casal, marmanjos a cortejavam a toda hora. Durante a valsa Janice desabafou com Durval:

“Quero sair desta festa não quero ficar nem mais um minuto. Estou traumatizada com esta situação e você não faz absolutamente nada para me ajudar. Você podia muito bem dar um tiro nesta vagabunda!” – Janice estava visivelmente transtornada.

“Venha cá meu amor vou pegar um uísque para você relaxar. Uma bebida forte vai te ajudar”.

Os dois foram ao garçom mais próximo. Ela nem fez cara feia ao virar o copo cheio. Voltaram para a mesa. Celina estava conversando animadamente com Gisela, uma ex-amiga de Janice. A muito não se falavam desde quando soube que Gisela paquerava Durval as escondidas.

“Belo vestido vocês arranjaram. Compraram juntas?” – Perguntou a peçonhenta amiga.

O jantar era bobó de camarão servindo num prato de porcelana inglesa decorado pelo famoso Chefe de cozinha Lui Martin. Janice pegou o respectivo talher para frutos do mar experimentou a iguaria, fez uma cara de desgosto e num simples gesto jogou todo o bobó de camarão em cima de Gisela.

O que seria um casamento triunfal virou uma briga de boteco de esquina. Janice insana quebrou uma garrafa de vinho, tinha a intenção de enfiar aqueles cacos no rosto de Gisela e da Celina. Durval usou de toda sua força para poder segurar a mulher. Necessitou da ajuda do noivo para separar as briguentas. Celina que era toda Zen, não entendeu o motivo de Janice estar brava com ela:

“Temos tanto em comum! O que foi que eu fiz?” – Com muito custo Durval conseguiu tirar Janice da festa e colocá-la dentro do carro. Na volta para casa Janice não parava de chorar Durval nada falava. Subiram para o apartamento, “vou comprar seu calmante”. Rapidamente tirou o terno e colocou um moletom. Saiu batendo a porta da sala.

Janice viu tudo isso chorando na sala. Levantou foi a seu closet, abriu a porta de espelho e se viu naquele vestido. O choro voltou em revolta, rasgou todo o vestido ficou nua no espelho. Viu seu corpo. Lembrou de como o vestido ficava bonito no corpo da Celina. Estava se sentindo muito mal a pior mulher do mundo, a mais feia, a mais horrorosa. Não conseguia imaginar o porquê de Durval gostar dela? Como ele poderia viver com um estrupício como ela? Ela era uma farsa como mulher, um arremedo de pessoa. Nem escolher um vestido decente conseguia escolher. A vida social que construíram juntos foi atirada na privada, Tudo porque não soube escolher um vestido decente.

Olhou para a porta de vidro de sua sacada. Eram quinze andares. O porteiro acordou com um repentino baque. Havia um corpo estendido na calçada.

Durval virou na esquina de sua rua, voltava da farmácia. Deu de cara com carros de polícia e ambulância. Deu meia volta no carro, entrou em uma viela perto de seu prédio. Parou no primeiro orelhão que encontrou. Discou rapidamente os números, não atendia. Discou de novo, atendeu:

“Celina? É o Durval. Nosso plano foi melhor do que esperávamos. Não vamos precisar mais dos calmantes. O vestido mais a baixa hormonal foram mais eficazes do que o calmante. Te espero daqui a quinze dias em Cancun. Beijos meu amor”.

O PENICO

O PENICO
Mesmo na presidência, Lula conservava um estranho hábito de família. Costumava guardar debaixo da cama um penico velho, do tempo de seus avós. Era um penico grande de ágate com a borda preta. Um costume que se recusava a largar.
Um dia quando ainda era um reles sindicalista, sua companheira jogou o penico fora. Achava nojento ver aquele troço cheio de urina ao acordar. Lula gostava do penico, lembrava da sua família, também porque de noite tinha preguiça de ir ao banheiro. Queria de volta, quase rompeu o relacionamento.
Acordou de madrugada não estava lá. Teve de ir ao banheiro. Não conseguiu urinar, estava tão acostumado ao penico que não conseguia mais urinar na privada a esta hora da madrugada. Sentou na privada, quem sabe assim conseguiria. Nada. Forçou. Nada, apenas um famigerado peido. Nada de mijo. Ficou mais irritado. Foi uma péssima noite. Na noite seguinte foi dormir na casa de sua mãe pois sabia que lá havia um penico.
Só voltou quando sua mulher lhe arranjou um novo urinol, de ágate maior do que o anterior. Ficou feliz. Descobriu que podia defecar nele. Mas a primeira vez que fez isso no quarto, sua mulher disse que se fizesse de novo iria contar para a imprensa.
Lula levou o penico ao Planalto, poucas pessoas sabiam deste estranho hábito. Um dia vazou para a imprensa, foi uma semana de pura irritação de Lula. Em seus discursos sempre colocava algo que remetia ao penico, mesmo que fosse a inaugurarão de uma escola ou o encontro de empresários o penico estava lá. Os assessores não sabiam mais o que escrever. Lula tinha o péssimo habito de ignorar as recomendações dos assessores. Ele não tinha paciência para ler tudo. Sempre achou que improvisar dava mais certo. Ele dizia: “Eu sei falá a língua do povo”.
O que o deixou mais irritado, foi a charge de um jornal na qual ele estava com o penico na cabeça, agachado sobre a constituição federal, lendo uma revista masculina. Chamou seu assessor de imprensa e o ministro da comunicação social. Disse que aquilo era uma ofensa ao representante deste país. Iria dentro em breve fazer uma retaliação ao jornal. Pra variar, esses comentários vazaram para a imprensa. Mais uma semana dos infernos para o presidente. Charges, comentários, artigos todos envolvendo o caso do penico.
A polêmica foi tamanha que a imprensa sugeriu uma entrevista incondicional com o presidente. O ministro da comunicação social negou. Outra semana de charges, artigos entrevistas de políticos versando sobre o penico. Lula não agüentava mais, decidiu fazer a entrevista, desde que não se tocasse no assunto do penico. Depois da entrevista o penico seria esquecido pelos jornais. Não foi. O penico sempre entrava na pauta de algum artigo, sempre acompanhava a charge de algum desenhista mesmo que fosse no canto da charge.
Mesmo com essa balburdia toda, o presidente levantava de noite para urinar e por vezes defecar em seu querido e estimado penico de ferro esmaltado. Quem detestava esse hábito era dona Maria, a emprega que tinha que limpar o penico todas as manhãs.
  • Posted: Tuesday, 7 August 2007 08:53:53 GMT
  • In: FEBEAPA
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