Elocubrar é a variante de lucubrar, compor uma obra com esforço, a custa de muita meditação. Literatura que se faz espremendo o cérebro. (O Autor)-------O Bom humor é a medida absoluta da inteligência do ser humano. (Nietzsche).

July, 2009

ONTEM

Ato único.

(O escritório principal.)

...Ontem...ontem foi ontem, mas como eu queria que não tivesse acabado...

Como voltar a minha vidinha habitual? Minha vida mudou! Eu mudei! Como voltar? Sem ela... Sem ela. Estou desamparado, estou na fossa. Nossa! Há tempos que não ouço isso. Estar na fossa. Pois é. É onde estou. É o que sinto. Um buraco dentro da minha alma.

(olha ao redor, sonda o ambiente, abre os braços)

Isso é fossa.

Aqui dentro do meu coração é fossa. Aqui no meu saco também!

Não! Não! Como deixei Ela passar? Porque não insisti? Um pouquinho que fosse. Mas fui na conversa dos outros com os tais princípios.

Hoje estou sozinho. Ninguém me quer. Ninguém me ama. Ontem por causa dela, abriam-se portas. Estendiam-se tapetes. Abaixavam-se cabeças. Eu era o tal! Eu a amava não por isso. Ela era muito bonita. Dizem que quando se ama, se quer estar no mesmo nível que a pessoa amada. Então quando se ama, agente se transforma para poder merecer a pessoa amada. Foi o que eu fiz, eu me transformei, eu mudei, eu me tornei aquilo que eu achava que ela queria. Mudei meus pensamentos, mudei minhas atitudes e meus princípios também, para o bem e para o mal. Afinal o amor é estranho, mostra o que é de melhor da pessoa e o que é de pior também.

(triste)

Mas não foi o suficiente. Não foi não. Era preciso mais. Era preciso que eu me tornasse o super homem. Era preciso que eu tivesse a sensibilidade de mudar sutilmente. Eu mudei de maneira errada. Também não tinha nenhuma consciência do que eu fazia. Sempre teve gente me orientando. Me dizendo o que fazer e como fazer. Eu fui somente um boneco para os outros. Cheguei a pensar que não seria digno dela. Até hoje ainda acho que não sou digno dela, mas a tive. E como tive! Fiquei tomado por sua beleza, seu peso, ela me abraçando nos momentos sociais que tivemos, ela sempre me pôs nas alturas. Me deixando perplexo com sua presença.

Mas, será que eu seria aceito pelos outros, pois mesmo numa relação, há de se prestar atenção aos amigos, à família, a toda sociedade que nos cerca. Mas ela queria mais, ela queria que eu me desvencilhasse deles. Ela queria que eu abdicasse deles. Eles que para mim foram tão importantes. Eles que me educaram. Eu tinha uma dívida...

Mas que porra de divida! Agora ela não esta mais comigo...Eu estou sozinho sem ninguém. Sem ela, sem família sem amigos.

Hoje ninguém me estende um tapete. Hoje batem a porta na minha cara. Hoje sou um ex...sou um ex..

(chora)

Eu a quero! Como a quero! Se eu tivesse ouvido aqueles que me pediram para ficar.

Se ao menos eu tivesse escutado o que ele diziam sobre ir embora e sobre respeitar princípios!

Que Merda! Que porra de princípios! Que se fodam os princípios!

Se eu não me ativesse às porras dos princípios ela estaria aqui! Agora! Comigo.

Se fosse antes. Eu daria um pé na bunda desses princípios, mas tive de mudar. Tive de me civilizar para poder sair com ela.

(chora copiosamente)

(levanta o rosto vermelho, está insano)

Não. Se eu não a tiver, ninguém vai tê-la! Ninguém!

(levanta-se e vai à sua mesa. Procura por algo, encontra uma tesoura. E ameaçadoramente vai até a sala ao lado.)

(Aos gritos.)

Ninguém vai ter você!

(Ouvem-se golpes com a tesoura. Ele aparece todo amarrotado, com lascas de um tecido verde amarelo em seus ombros e pedaços do mesmo tecido nas mãos. Olha para a tesoura e a larga no chão. Cambaleante volta à sua mesa. Serve-se de whisky que toma tudo num único trago. A porta abre e sua mulher entra.)

Querido! O quê aconteceu? Meu deus! O quê você fez? (aterrorizada)

Terminei. Ninguém mais vai ter ela. Ninguém!

Você enlouqueceu? Andou bebendo de novo? O que foi que você aprontou homem de Deus?

Não me enche o saco mulher! Fiz o que tinha de fazer. Ela não fica comigo. Não fica com mais ninguém! Com mais ninguém! Entendeu?

(A mulher pega os retalhos pela sala.)

A se a imprensa sabe disso! Já não basta todos os escândalos que aparecem por aí? Quer mais um? Você pare de beber! Daqui a pouco teremos de ir embora desse local. Se a imprensa sabe, será mais um para termos de explicar e as desculpas já chegaram ao fim. Ninguém mais acredita em nós. (Lágrimas nos olhos.)

Vamos sair com um mínimo de dignidade. Já que você foi incapaz de ter essa dignidade enquanto você esteve com ela. (Apontava para a sala ao lado.)

Esta na hora de darmos adeus a tudo isto e a ela também. Resigne-se! Levante a cabeça homem de Deus! Agarre-se ao resto de hombridade que lhe resta. Se é que você há teve algum dia.

(Ele pega o telefone)

Samuca. Vem aqui.

(Entra o secretário.)

Samuca meu querido. Vou te dar uma ordem. A última ordem.

Pode falar senhor Presidente.

Peça para a Dona Marta. A costureira do Palácio, fazer outra faixa presidencial. A última esta muito puída. Fale pra ela que este é meu último pedido.

Sim senhor Presidente.

Pode sair.

(O secretário sai e o Presidente cai em prantos com os retalhos do tecido em suas mãos.)

Meu Querido. Vai dar tudo certo. Não se preocupe.

(Levanta a cabeça e repete.)

Ontem eu fui presidente, hoje eu sou nada.

(Cai o pano.)

  • Posted: Wednesday, 8 July 2009 00:09:46 GMT
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