Elocubrar é a variante de lucubrar, compor uma obra com esforço, a custa de muita meditação. Literatura que se faz espremendo o cérebro. (O Autor)-------O Bom humor é a medida absoluta da inteligência do ser humano. (Nietzsche).

August, 2009

A Truculência

João Balaio estava viajando quando soube da demissão. Mandaram a passagem de volta. João visitava uma das possíveis obras da firma. Sabia que se não conseguisse essa obra, não tinha motivos de continuar como mais um engenheiro da firma. A crise estava brava e a firma estava à beira da falência, caso não arranjasse contratos. Mas a crise não era só dele, era generalizada. Em outras épocas havia tanto trabalho que não parava em casa. Pelo menos agora, por um tempo, ficaria junto às filhas. A esposa trabalhava também. Funcionária pública, ia segurar a barra por um tempo. Quando soube da demissão, João foi para o hotel, se trancou e chorou. Os tempos estavam difíceis e esta foi uma forma um tanto infantil, mas muito eficiente de desabafo.

No dia seguinte, juntou suas coisas e foi para o aeroporto de Brasília. No vôo do meio dia voltaria para São Paulo. Check-out do hotel. Pelo menos a firma pagou suas despesas de retorno. Era um bom profissional a firma sabia disso. Eram somente as circunstâncias.

Taxi, aeroporto e malas. Este foi o procedimento durante muito tempo. Estava mais que acostumado, foi andando pelo saguão do aeroporto tentando alcançar a passagem que se entocou no fundo do bolso do paletó. Parou, soltou as malas e tentava a todo custo alcançar a passagem com os dedinhos quando alguém esbarrou nele e quase foram parar no chão.

“Mas que absurdo! Não olha por onde anda?”

“Minha senhora. Foi a senhora que esbarrou em mim.”

“Eu não esbarrei em você. Foi você que esbarrou em mim. Seu ignorante!”

“Minha senhora, eu estava parado tentando pegar a minha passagem no meu bolso quando a senhora esbarrou em mim!”

“Não me venha com essas histórias. O Senhor deveria olhar por onde anda!”

Neste momento, pessoas começaram a prestar atenção na confusão, juntando uma pequena multidão.

“Minha senhora. De novo, foi a senhora que esbarrou em mim. Eu estava parado tentando pegar minha passagem...”

“O senhor me deve umas desculpas por esse inconveniente. Não esta vendo a confusão que o senhor esta fazendo? Olhe essas pessoas!”

As pessoas olhavam para a confusão. Algumas pessoas apontavam seus celulares tirando fotos. João não entendia porque eles estavam tirando foto.

“A senhora que me deve desculpas. Foi a senhora que esbarrou em mim.”

“Seu mal educado! Seu pulha! Como ousa? Sabe com quem esta falando?”

Triste por ter perdido o emprego, arrasado pelos tempos que virão. Essa era a última frase que queria escutar. Engolira muitos sapos durante esse último semestre de crise, este não tinha a menor obrigação de deglutir. Abriu um sorriso cínico e respondeu:

“Muito prazer meu nome é João Balaio. Qual a sua graça?”

A empáfia não baixou.

“Eu sou a chefe da casa civil, santinho. E o senhor me deve desculpas.”

“E a chefe da casa civil tem nome, ou este é o seu nome?”

Ela estava ficando vermelha.

“Seu idiota! Como você ousa de cinismo para comigo?”

“Dona chefa da casa civil, meu nome é João Balaio, sou engenheiro e acabo de ser demitido, porque a chefa da casa civil não teve a menor competência para gerenciar uma crise. E pelo que vejo. Costuma colocar a culpa em outrem do que assumir a própria, pois foi a senhora que esbarrou em mim!”

A galera que se acumulara tirava fotos e mais fotos. Todos estavam delirando com o barraco formado.

“Chamem a guarda presidencial! Chamem meus seguranças! Cadê os idiotas dos meus seguranças! É por isso que eu não tomo avião de carreira!”

“Se a senhora quiser, podemos ver quem esbarrou em quem pelas câmeras de segurança do aeroporto.”

“Você é burro ou se faz de tonto? Não vê que não posso me expor desse modo? Não vê que eu sou uma mulher importante? Não vê que eu sou uma pessoa importante do governo?”

“E a senhora, pelo visto não vê por onde passa, pois foi a senhora que esbarrou em mim.”

“Quem você pensa que é para falar desta maneira comigo?”

“Já disse para a senhora, meu nome é João Balaio, engenheiro e desempregado pela crise que a senhora não conseguiu gerenciar. É preciso mais?”

“Ô Santinho! Não se faça de tonto não! Você dobre a sua língua quando falar comigo, viu?”

“Minha caríssima Senhora. A Senhora tem alguma noção do que se trata a isonomia? Sabe ao menos o que significa?”

“Não venha me dar lição de moral! O que é isso?”

Neste momento uma câmera de televisão grava todo o acontecimento. João Balaio agora estava famoso. Era mais um escândalo do pessoal de Brasília. Mais uma coação de alguém que manda.

Os seguranças da Chefa da Casa civil não sabiam o que fazer, então por impulso ou por puro instinto de jagunços, seguraram a força João Balaio, lhe deram um pescoção. Era a truculência falando.

Os repórteres chegaram e começaram as perguntas, tudo filmaram, tudo fotografaram. A história que a Chefa da casa civil inventou foi de que ele era um terrorista. Um terrorista a mando da oposição.

João Balaio foi preso. Agora desempregado e preso. Longe de casa. Se estivesse trabalhando resolveria aquela situação na hora, pois teria mais o que fazer do que discutir besteiras com um burocrata do governo. Os repórteres foram saber o que havia acontecido. João relatou cada passo. Um dos repórteres se adiantou e conseguiu as filmagens das câmeras de segurança do aeroporto. A oposição aproveitou a deixa e num cochilo dos governistas instalaram uma CPI só pra desvendar o assunto, pois era mais do que sabido da truculência da Ministra.

Uma semana depois o governo pagou a passagem de volta de João, lhe deu um bônus de salário desemprego se ficasse calado. Mas não ficou. João se tornou símbolo do trabalhador atingido pela crise. Quando era entrevistado dizia que precisa trabalhar. Mas as coisas continuaram da mesma maneira. João mais tarde conseguiu o emprego de volta. Era um bom profissional, um bom pai, viu o resultado nas filhas bem criadas.

A ministra, não teve seu nome escrito na história, não fez nada que lhe desse crédito para isso. Ela não melhorou a vida de ninguém, não fez nada que marcasse a história. Nem o fato de ser a primeira mulher ministra da casa civil lhe foi marcante. Ela continuou com sua truculência. Foi esquecida.

  • Posted: Wednesday, 19 August 2009 23:40:20 GMT
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